O jornalista Alexandre Inagaki é um dos principais nomes da blogosfera brasileira e está por trás de importantes projetos de mídias sociais. Seus feitos são cheios de superlativos.
Inagaki fez alguns cursos universitários, mas foi na web que encontrou uma carreira – e de muito sucesso. Em 2002, criou seu blog, o Pensar Enloquece, Pense Nisso. Com os textos saborosos, cheios de análises sociais e boas sacadas, acabou tornando o blog um dos grandes nomes na produção brasileira de conteúdo. Foi um dos criadores do InterNey Blogs, o mais importante coletivo de blogs do país. Hoje, é consultor em projetos de mídias sociais – já trabalhou para grandes empresas e agências de publicidade, tornando-se uma das grandes referências na área. Inagaki também é um dos curadores da área de blogs da Campus Party Brasil. Acompanha de perto tudo que acontece na web brasileira – e está por trás de várias dessas coisas. Isso tudo conciliado à reforma do apartamento que comprou há pouco.
Nessa entevista, realizada por E-mail, ele conta o que pensa sobre a fama virtual como um todo, inclusive aquela que o atinge.Abaixo, você descobre como funciona esse mercado na visão de alguém que o alimenta e diz:
Um blogueiro ou twitteiro conhecido ganha convites VIP para algumas festinhas ou eventos, um e outro jabá, (…) e não muito mais do que isso. (…) Se uma pessoa se deslumbra com esse tipo de coisa, lamento pela pouca ambição que ela nutre.
Gustavo: Como você vê a fama virtual?
Inagaki: A internet e as redes sociais promoveram uma espécie de varejização da fama. Vide o Orkut e aquelas estrelinhas que você dava para seus contatos por lá. Ainda é possível encontrar no Orkut, aliás, comunidades como “Escambo de Karma” e “Karma Para Todos”; bastava você ingressar em uma dessas comunidades e deixar recado em algum tópico para que pessoas que você nunca viu na vida tornassem-se fãs e amigos seus (e isso para não citar as comunidades de ghost writers de testimonials que já fizeram muito sucesso por lá).
Mas, convenhamos, não dá para dizer que essas “cibercelebridades” de fato podem ser consideradas famosas. Por mais que a internet continue ganhando relevância e audiência junto à população brasileira, qualquer ator coadjuvante da novela das seis permanece sendo muito mais conhecido do que um usuário de Twitter com 100 mil followers que nunca apareceu na TV. E esse cenário continuará assim por um bom tempo; afinal, enquanto a TV aberta abrange 99% do território brasileiro, a estimativa mais recente do eMarketer aponta que em 2010 a internet alcança só 35,9% da população brasileira, estimando que em 2014 essa porcentagem chegará a 47,6%. Há muito o que se percorrer ainda.
G: Você é um cara famoso dentro de um grupo. Essa micro fama é perceptível no seu dia-a-dia? Como ela se manifesta?
I: Nestes tempos de long tail, há a “fama” que dura 15 bytes. Ou as pessoas que são famosas para 15 pessoas, provocando efeitos bizarros como o fato de que, em determinados eventos como a Campus Party, pessoas me param para pedir autógrafos. Ok, já fui reconhecido andando na Oscar Freire ou na Paulista, mas a possibilidade disso acontecer é só em determinados lugares. Não creio que pessoas irão reconhecer minha estampa no Capão Redondo ou no interior de Mato Grosso.
G: Você acha que há algum tipo de benefício em ser algum tipo de webcelebridade se a fama não ‘vazar’ pra outros meios?
I: Um blogueiro ou twitteiro conhecido ganha convites VIP para algumas festinhas ou eventos, um e outro jabá, ingressos para cabines de filmes e não muito mais do que isso. Nada muito diferente do que jornalistas, amigos e parentes de artistas já não desfrutavam há tempos. Se uma pessoa se deslumbra com esse tipo de coisa, lamento pela pouca ambição que ela nutre.
Esse tipo de exposição, por mais ínfima que seja, de qualquer modo ajuda a abrir portas. Se a webcelebridade aproveitar isso para expor seus trabalhos e talentos que possa exibir, não duvido que consiga capitalizar esses reconhecimentos de uma maneira mais consistente. Mas, se ficar satisfeita só com esses holofotes que logo se apagam e viram abóbora depois da meia-noite, desaparecerá feito esses ex-participantes de reality shows que depois mendigam ajuda em programas vespertinos de fofocas e celebridades.
G: A internet aumentou o número de gente que pode ter alguma fama ou você acha que é só uma reprodução de um cenário de popularidade na vida real, que podia existir antes da web?
I: A web facilitou em muito esse processo de popularidade instantânea. É o miojão da fama na internet – bote um vídeo ridículo ou vexaminoso no YouTube, deixe ferver por 3 minutos no Twitter e blogs populares e pronto: temos um novo sucessor para ser a Katilce, a Aretuza, o André Arteiro, o Lidio Mateus, a guria do “safadeza oculta” (cujo nome já esqueci) da vez.
Sim, são fenômenos que ocorriam antes da web. Mas, do mesmo modo que blogs pulverizaram a criação de novos formadores de opinião que independem de coluna em revista ou jornal para terem um público fiel de leitores influenciados por seus posts, a internet faz com que essa nova geração de “famosos” independa de pagar mico em programa de auditório ou ser selecionado para comer minhocas num reality show para ganhar certo reconhecimento.
Ressalte-se, claro, que me refiro aqui ao lado infame da fama de internet. Há o outro lado da moeda também, de gente que usou a web para divulgar músicas, textos, ideias, vídeos, e graças à internet conseguiu reconhecimento sem precisar causar overdoses de vergonha alheia web afora. E aí cito André “Cardoso” Czarnobai, os Jovens Nerds, Susie Lau, João Paulo Cuenca, Mombojó, Eduardo Spohr, Lily Allen e Fábio Yabu como alguns dos trocentos exemplos que dá para elencar de gente talentosa que começou a divulgar seus trabalhos na internet, e hoje assina colunas em jornais, frequenta listas de best-sellers, faz shows concorridos e o escambau.