por Gustavo Jreige / 30 Ago

É praticamente impossível mudar-se de um país para outro sem confrontar-se com o choque cultural, como vimos nas histórias postadas na última semana. Contudo, existem cidades em que esse “fenômeno” parece ser menos efetivo.

As chamadas cidades cosmopolitas são aquelas que abrigam indivíduos de diversas nacionalidades e culturas que, na medida do possível e apesar de estarem fora de casa, sentem-se bem no local que adotaram como morada.

O melhor exemplo de um lugar cosmopolita, multicultural ou super-globalizado na atualidade é Toronto, no Canadá. A começar pelo nome: uma das origens da palavra Toronto é “lugar de encontro”.
Considerado o principal centro financeiro, industrial e bancário do Canadá, Toronto apresenta um amplo cenário cultural – que inclui teatros, museus, restaurantes e baladas –, além de ser uma cidade com um dos índices de criminalidade mais baixos do mundo.

Com tamanhos atrativos e considerada uma das cidades mais tolerantes do mundo, Toronto possui a segunda maior população, 49,9 %, que nasceu fora do país, perdendo apenas para Miami segundo dados do Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas, de 2004. Na cidade canadense são falados mais de 100 idiomas e dialetos. Da população estrangeira, a maioria é composta por asiáticos, principalmente chineses.

Nós conversamos com a brasileira Lidi Faria, que passou três meses na cidade fazendo intercâmbio. “No metrô era até engraçado: você escutava mil idiomas… Eu ficava sempre orelhando as conversas, tentando entender algo, mas era coreano, espanhol… Tudo, menos inglês”, diverte-se. Clique aqui e leia a história completa, que postamos recentemente.

Outra localidade que atualmente destaca-se pelo multiculturalismo é Dubai, pertencente aos Emirados Árabes Unidos. Nada menos do que 83% dos 1,4 milhão de habitantes de Dubai são estrangeiros.

Dona de um visual futurista – devido, principalmente, a construções como a Burj Dubai, prédio mais alto do mundo – Dubai atraiu um grande número de estrangeiros durante o boom imobiliário por que passou de 2003 a 2008, quando os governantes locais resolveram investir no turismo de luxo como base econômica da cidade. Dubai tem uma mistura sem precedentes de ocidente e Islã. Terra de superlativos, a cidade possui hotéis, restaurantes e pessoas de todos os lugares do mundo.

Por lá, apesar de ser comum ver árabes do Golfo vestidos de acordo com a tradição islâmica, também é comum ver estrangeiros vestido com seus trajes usuais. A tolerância é maior do que nas demais cidades da região – o interesse em atrair investimento externo fizeram com que os traços mais conservadores da cultura local fossem deixados de lado.

Lembra da jovem Priscila Valavicius, do penúltimo post? Ela, que deixou o Brasil para se tornar comissária de bordo da Emirates, a gigantesca companhia aérea estatal, mora em Dubai desde 21 de junho de 2010 e é um exemplo de alguém que se adaptou facilmente a uma cidade justamente por ser essencialmente cosmopolita. “Dubai é mais liberal, porque eles investiram muito em turismo”, explica.

O multiculturalismo é favorecido justamente pelas boas condições de vida proporcionadas pela cidade e pelo fato dos estrangeiros terem liberdade para expressar sua religião e costumes no local.

“Se eles fossem tão rígidos, não seria permitido beber dentro de hotel. Muçulmano não come carne de porco, e ainda assim, supermercados têm uma área que vende carne de porco”, lembra, mencionando o hábito muçulmano de não consumir álcool que, em um país teocrata, acaba se transformando em proibição com consequências jurídicas. “Se Dubai pudesse ter cassino, seria igual a Las Vegas”.

por Vinícius Saccomani / 29 Ago

Entrar em contato com culturas diferentes pode ser empolgante para algumas pessoas e desesperador para outras. A mudança de vida e a forma de lidar com ela pode ser o passaporte para o céu ou para o inferno, dependendo de como a pessoa a assimila. No entanto, a questão depende também do lado social da mudança.

A forma de recepção da sociedade para com o novo indivíduo é determinante para sua aculturação. O sociólogo Alexandre Persona, especializado em Relações Humanas pela Fundação Santo André – FSA -, acredita que é essencial entender essa variante. “Algumas sociedades são mais abertas que outras. O Brasil, por exemplo, recebe bem a todos, mas nem todos os brasileiros são bem recebidos”, explica.

O sociólogo compara a chegada de um estrangeiro em determinado país com uma pessoa recém contratada numa empresa. “A pessoa opta por outro lugar provavelmente porque lá ela encontrará melhores condições de vida. A sociedade é como uma empresa e para que se sinta bem por completo é fundamental ser aceito por ela”, conclui.

Outro fator importante na relação entre indivíduo e sociedade é entender o processo de aculturação. “Ninguém consegue mudar a maneira como vive da noite para o dia. O fato de estar em um novo lugar não o faz pertencer àquele lugar. O jeito é ir se moldando aos poucos. Desta forma, a sociedade irá recebê-lo melhor”, garante Persona.

Apesar de não haver regra quando o assunto é choque cultural, o sociólogo, assim como a psicóloga Laura Ueno, defende que é preciso conhecer o lugar de destino e dá uma dica: “Uma saída é procurar saber sobre algum ponto de sociabilização como, por exemplo, um restaurante ou um bar brasileiro. Essa também é uma forma de integração a nova sociedade”, assegura.

Atualmente, essa integração vem sendo facilitada em decorrência da diversidade cultural, aponta o sociólogo. “A globalização não ajudou apenas a política, a economia, a tecnologia. O campo social também foi afetado. Vivemos cercados de culturas diferentes da nossa”, diz ele.

Segundo Persona, a globalização trouxe às sociedades a necessidade de interação entre povos. “Há uma abertura maior do que há 20 anos, por exemplo, mas ainda não é o bastante.” Ele lembra que o local de destino deve oferecer condições mínimas de convívio social. “Não existe possibilidade de entrar numa cultura alheia sem que ela queira que você entre. Cada um tem que fazer a sua parte”, defende.

por Gustavo Jreige / 27 Ago

A brasileira Priscila Valavicius, 22 anos, virou comissário de bordo em Dubai

Tem gente que nasceu para viver pelo mundo. Priscila Valavicius, 22 anos, é uma delas. Depois de passar um ano na Holanda em um programa de intercâmbio como au pair, ela voltou ao Brasil e resolveu se tornar comissária de bordo da Emirates Airlines. Não que ela tenha descoberto uma grande vocação ou algo do tipo: “Não é por amor a profissão de comissária, mas pela oportunidade de conhecer vários lugares”, diz.

Priscila se mudou para Dubai, nos Emirados Árabes, no dia 21 de junho deste ano, quando deixou a família e os amigos em São Paulo para cumprir um contrato três anos pela companhia aérea – prazo que pode ser estendido.

Viver sem ter muitos planos é o tipo de coisa que empolga a garota. “Larguei tudo – família, amigos – para ir a um lugar onde eu não conhecia nada. Só sabia que ia trabalhar para a Emirates, mas nem pesquisei o que faria em Dubai. Eu deveria ter pesquisado, mas não vi nada. Simplesmente cheguei no aeroporto, tinha um chofer esperando e eu fui para um apartamento. Nem sabia onde eu estava no mapa”.

A adaptação foi rápida, de acordo com ela. Priscilla explica que, por causa dos intensos investimentos em turismo, Dubai é uma cidade cuja população estrangeira é a esmagadora maioria. Assim, os costumes islâmicos acabam sendo menos rígidos do que nos Emirados vizinhos. Apesar da proibição rígida de consumo do álcool, as autoridades fazem vistas grossas para turistas que bebem dentro de baladas e de hóteis, por exemplo. Além disso, nesses lugares as mulheres podem se vestir à moda ocidental, isto é, usando saias e decotes, enquanto na rua não é bem assim. “Moro perto da divisa com outro Emirado, fui ao shopping de shorts e o segurança me pediu para voltar e colocar uma calça”.

O primeiro muçulmano que Priscilla conheceu e a ajudou a se adaptar a nova vida acabou se tornando seu namorado. Mohammed tem 26 anos, é repórter de uma rede de TV em Dubai e, segundo a menina, é moderno para os padrões muçulmanos. “No treinamento da Emirates tinha um muçulmano do Egito que não namorava. Ele dizia que quando conhecesse a menina certa, casaria de cara. Já o Mohammed, por exemplo, namora. Em alguns casos, a família sabe; em outros, não”, explica. “A família do Mohammed sabe sobre vocês?”, pergunto. Priscilla ri. “Ele diz que sim. Disse que inclusive que posso conhecê-los, se quiser. Mas eles moram em outro Emirado, não vivem em Dubai”, diz.

Sobre a dificuldade de coordenar costumes e hábitos no romance, Priscilla diz que por sorte o rapaz tira todas suas dúvidas. “Com meu namorado é super normal. Foi muito difícil no começo, porque eu não sabia o que era permitido e o que não era. Aos poucos, ele foi dizendo que eu podia perguntar o que quisesse”.

Nessa área, Priscilla menciona a sisudez dos árabes, que por hábitos religiosos e culturais não têm permissão de demonstrar afeto em público – até beijar o rosto de uma amiga, por exemplo, é proibido. “No máximo, pode dar as mãos. Não poder beijar e abraçar meu namorado em público foi uma mudança drástica”, conta.

A escolha pela profissão veio da oportunidade de conhecer diferentes culturas – ou seja, aquilo que motiva o choque cultural em algumas pessoas é exatamente o que motiva Priscila a viajar. “A única coisa que sinto falta é minha família e meus amigos. Museu, praia, restaurante, shopping, trabalho: isso tem em todo lugar do mundo”, aponta.

Sobre voltar para o Brasil, ela vacila. “Não sei se vou conseguir. Não vai ser a mesma coisa, porque eu vou ter tido muitas experiências diferentes”, diz. Priscilla vê essa troca drástica de ambiente como algo a se perseguir, um objetivo de vida. “O que eu mais gosto de fazer é viajar e ter contato com as pessoas, conhecer diferentes culturas. Acho que assim minha vida vai ser memorável.”

por Júlia Aronchi / 27 Ago

Leonardo Sarmento, brasileiro de 33 anos, mora há 5 anos na cidade de Magdeburg, na Alemanha. Antes disso, ele já havia morado 3 anos em Dublin, na Irlanda, entre 2003 e 2005. Hoje, na Alemanha, ele trabalha como gerente de projetos em uma empresa de biomedicina. Durante o período em que ainda estava se adaptando, ele passou por diferentes atividades de entrosamento dentro da empresa. Entre elas, apresentar aos colegas algumas diferenças culturais entre brasileiros e alemães que lhe eram nítidas no dia-a-dia.

Para realização da atividade, Leonardo se baseou em um estudo de caso de Recursos Humanos realizado por alunos da Faculdade de Ciências Econômicas, Contábeis e Administrativas – FCECA -, da Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo, entitulado “Trabalho e Diferenças Culturais: Um estudo na Câmara de Comércio e Indústria Brasil-Alemanha”. O estudo atenta para o fato de que os líderes de RH deve dar atenção às diferenças culturais de cada funcionário da empresa.

Aqui você confere parte do interessante material preparado por Leonardo:

por Gustavo Jreige / 27 Ago

A jornalista Lígia Braz, que mora na Alemanha desde 1989, com seu filho - 2009

A jornalista e escritora Ligia Braz, de 48 anos, saiu do Brasil em 1989 quando mudou-se para a Alemanha com seu primeiro marido. Dá para dizer que hoje ela é mais alemã do que brasileira. Mas no começo não era bem assim.

“A distância e o respeito à privacidade são muito maiores da Alemanha do que no Brasil. Era muito diferente, começando pelo clima, pelas casas. Até mesmo meu marido da época, filho de pais estrangeiros, que cresceu falando alemão dentro de casa no Brasil, teve muitos problemas de adaptação”, conta. Ligia explica que, além das diferenças culturais, a língua alemã também é uma enorme barreira à integração de estrangeiros, em função da estrutura gramatical muito diferente do português e até do inglês.

Apesar de muitos gringos serem atraídos ao Brasil pelas imagens de mulatas seminuas dançando no carnaval, Ligia diz que a relação da cultura alemã com a nudez é bem menos cercada de tabus do que a nossa. “Nas praias do Brasil apesar dos bíquinis e sungas serem minúsculos, a nudez é uma coisa reservada. Não saímos por aí trocando de roupa em lugares públicos, nem mesmo em frente dos familiares. Os alemães parecem não se importar muito”, analisa. Ela já enfrentou situações em que se sentiu constrangida, como uma vez em que entrou numa sauna com seu marido e sogros, todos sem qualquer peça de roupa. Depois disso, passou a recusar qualquer convite parecido. “Simplesmente vai contra os meus valores e formação.”

Ligia tem um filho de 8 anos que nasceu na Alemanha. Para ela, é muito clara a diferença entre o garoto e outras crianças da mesma idade que moram no Brasil. “Ele é muito mais independente do que garotos da sua idade no Brasil e aos 8 anos vai e volta da escola sozinho, por exemplo. Ele recebe uma educação multicultural e isso é bastante positivo, a começar pelas duas línguas, que fala fluentemente. E há uma maior preservação da infância; tenho a impressão que é possível ser criança por mais tempo em países europeus”, diz ela. São os resultados da melhor qualidade de vida que ela e a família têm na Alemanha.

O jeito preferido de relembrar o Brasil é comendo. Assim como para outro de nossos entrevistados, o Guilherme (de quem falamos há alguns dias), a culinária é parte importante para ela e o filho manterem contato com a cultura brasileira. “Adoro coxinhas, pastéis, pão de queijo. Meu filho também. Sentimos falta de muitas comidas e bebidas”.

Ligia também nota alguns dos símbolos da classe média brasileira estão fora de questão para os europeus. “A mão de obra caríssima torna proibitivo alguns luxos como empregadas domésticas, faxineiras, esteticistas”. Mesmo assim, voltar para cá está fora de questão. “Sou paulistana e considero a cidade uma das piores do mundo para se viver. São mais de 20 milhões de pessoas se espremendo sob o comando de uma só prefeitura, me parece mais com um aglomerado infernal do que com uma cidade”, opina.

A qualidade de vida da Alemanha faz com que Lígia queira isso para ela e para seu filho. “Ele tem toda a vida escolar pela frente, e no país onde vivemos ele tem tanto educação como saúde garantidos, mesmo que eu tenha problemas de saúde ou de desemprego”, explica. “Não há grades, nem guaritas, nem guardas, nem porteiros. Conhecemos nossos vizinhos. Em nossa cidade – onde estou há 21 anos – nunca soube de um assalto ou de um roubo ostensivo. Nunca ocorreu um homícidio. Casos isolados chocam a sociedade.”

por Gustavo Jreige / 26 Ago

Lidiane Faria, a Lidi, que ficou três meses em Toronto, no Canadá, esse ano

Poucos têm essa sorte, mas a analista de mídias sociais Lidiane Faria, de 25 anos, ganhou um concurso cultural de uma agência de intercâmbio. O prêmio era um programa para estudar idiomas no Canadá por três meses. Ela deixou o emprego, se despediu da família, dos amigos, do namorado e foi.

Lidiane conta que escolheu Toronto, entre as outras cidades disponíveis no programa, por sua semelhança com São Paulo, que certamente facilitaria a adaptação. “Toronto é urbana, desenvolvida e tem uma vida cultural bem rica”, disse. Mesmo assim, alguns choques são impossíveis de evitar e, de cara, ela sofreu com a diferença da língua. “Sofri com o idioma assim que cheguei no aeroporto. Entendia pouca coisa, mas mantinha a calma e tentava entender. Aos poucos fui acostumando”, conta rindo.

Foi a primeira vez que teve que absorver por completo uma cultura tão diferente – sua outra experiência no exterior se restringia à Argentina, aqui pertinho – Lidiane se descobriu muito mais patriota do que imaginava ser. “Nossa, acho que se eu ouvisse um samba saía dançando! É incrível como você se torna patriota fora do país, o quanto dá valor a um prato de arroz e feijão…”, desabafa.

Perguntada sobre o que mais teria gostado no Canadá, ela tocou no ponto que é a maior preocupação de muitos brasileiros: a segurança. “No lançamento do iPad, por exemplo, todo mundo andava com a caixa no metrô. Ninguém comprava sacola e escondia. Eu andava com a câmera pendurada no pescoço, saía à noite de metrô…”, lembra.

O que menos sentia falta? Dos atrasos dos brasileiros (o Francesco deve concordar!). “Não falhava: quando alguém chegava atrasado à aula, era brasileiro. Quando combinavamos de sair e os gringos viam que tinham vários brasileiros no grupo, chegavam 15 minutos depois do combinado e ainda assim tinham que esperar. Parecia piada, mas irritava os canadenses”.

Lidiane fez um blog da viagem. Clique aqui para ler.

por Júlia Aronchi / 26 Ago

Natural de Copenhagem, na Dinamarca, Caroline Aggergaard Henriques, 24 anos, veio ao Brasil para visitar o namorado que mora em Votorantin, interior de São Paulo. Essa foi a segunda vez da estudante de Engenharia de Alimentos por aqui. Há um ano, quando morou no Brasil por seis meses, Caroline estudou português e conheceu os principais pontos turísticos do país.

Sobre a cidade:

“Comprar no Brasil é bem diferente. Os supermercados aqui são muito maiores que os da Dinamarca e por conta disso eu acho que é extremamente cansativo ir as compras aqui. É difícil achar o que você precisa e quando se acha tem que escolher entre muitas marcas e tipos. Eu realmente sinto falta dos supermercados pequenos da Dinamarca, onde você pode fazer as compras com rapidez. Eu também percebi que quando as pessoas compram comida elas compram em grandes quantidades, isso faz com que você tenha que ficar esperando na fila do caixa por muito tempo. Na Dinamarca é mais comum comprar o que você precisa somente para alguns dias, mas aqui parece que as pessoas estão comprando para várias semanas”.

Diversão:

“Tem sido muito engraçado ver como os brasileiros ficam felizes com futebol. Durante os primeiros jogos da Copa, todos os lugares pareciam uma grande festa. Na Dinamarca, ninguém deixa de ter aula ou de trabalhar para assistir nenhum jogo, ao contrário daqui. Para mim, os brasileiros sabem aproveitar a vida, sair com os amigos, melhor do que os dinamarqueses. Eu acho muito legal o que vocês chamam de churrascos, quando toda a família e amigos estão reunidos. Uma vez eu e o meu namorado fomos visitar a família que o hospedou assim que ele chegou aqui. Quando chegamos lá eles estavam saindo para ir a um casamento e logo fomos convidados para o churrasco de comemoração com pessoas que nós nem conhecíamos. Eu achei muito legal perceber como as pessoas tem a mente aberta. Todos tem sido muito legais comigo aqui no Brasil. Estrangeiros na Dinamarca costumam dizer que não é tão fácil socializar com pessoas novas e que não os conhecem”.

Responsabilidade ambiental:

“Eu acho muito estranho o uso das pequenas sacolas de plástico por aqui. Elas são tão pequenas que ao sair do supermercado é necessário carregar umas dez sacolas. Na Dinamarca nós usamos sacolas plásticas bem grandes ou levamos a nossa própria sacola de tecido. Eu acho que em uma de nossas sacolas de plástico grande deve caber em torno de dez sacolas daqui. Eu também não entendo o porque tanta gente tem o costume de lavar a calçada em frente a casa com, água, vassoura e sabão. Apesar de ficar com uma aparência muito boa eu acho que é muito desperdício de água. Nunca vi ninguém fazendo isso na Dinamarca”.

Transporte:

“Eu tenho sido muito cuidadosa com o trânsito aqui no Brasil. Eu percebo que muitas pessoas não parecem prestar muita atenção, principalmente os motociclistas. Eles dirigem igual loucos, eu não entendo como eles tem coragem de fazer isso, e muitos deles dirigem só de camiseta e sandálias. É muito dificil ser pedestre nas ruas daqui. Muitas vezes, as ruas não tem sinalização, somente para os carros. Outra coisa que eu penso é que não parece ser muito comum ter airbag nos carros. Na Dinamarca não é permitido vender carros sem airbag e todo mundo sabe que ele ajuda muito em caso de acidentes.

Além de tudo isso, aqui parece ser normal para muita gente dirigir depois de ter ingerido álcool. Na Dinamarca, se as pessoas estão bebendo cerveja ou vinho, é normal pegar um táxi ou uma carona para casa, caso contrário ela passa uma má impressão sobre si. Se, neste caso, a pessoa for sua amiga, ela certamente seria impedida de fazer tal coisa e colocada em um táxi. Mas aqui parece totalmente normal que você vá a um bar, beba e dirija de volta para casa. Por conta disso, eu tenho me sentido muito insegura nas ruas durante a noite. Todo mundo pode estar bêbado no trânsito. Uma vez, fui a um bar para assistir a um jogo de futebol e, no intervalo, três garotas que tinham bebido quase uma garrafa inteira de vodka pegaram o carro e dirigiram com o copo na mão!”.

Tempo:

“Os brasileiros que convivi por aqui tem uma relação com o tempo totalmente diferente da que eu estou acostumada. Por diversas vezes, marquei encontros com amigos e eles apareceram um hora atrasados e não se sentiram culpados por isso, sequer pediram desculpas. Há também alguns que sempre falam para nos encontrarmos, mas acabam não ligando nunca para marcar o lugar e a hora. Eu acho isso bem estranho”.

Alimentação:

“Na Dinamarca nós estamos acostumados a ter um almoço ‘frio’, como sandwiches, por exemplo. Mas aqui as pessoas fazem um grande almoço com arroz, feijão, batata e carne. Eu também percebo que há muitos restaurantes fast-food em todo o lugar. Outra coisa que eu noto é que aqui se come muito queijo. Quando vou a algum restaurante sempre me surpreendo com a quantidade e a variedade de queijo que tem em quase todos os pratos. Isso sem falar no açucar. Quando me oferecem café ou suco e eu digo que não quero açucar todos me olham como se fosse a coisa mais estranha do mundo e sempre me perguntam duas vezes para saber se eu tenho certeza”.

Clima:

“Eu me surpreendi bastante com o inverno no Brasil. Além de passar frio na rua eu também passei frio quando estava dentro de casa. Eu não entendo isso. Eu venho de um país mais frio, mas não estou acostumada a congelar no quarto durante a noite porque temos aquecedor dentro de casa. Até mesmo em um restaurante, durante o jantar, é necessário ficar com o casaco porque também é frio e sem aquecimento. Eu acho muito difícil de aproveitar o jantar passando frio. Além disso, durante algumas viagens de ônibus, não importava se estava dez graus ou quarenta, o ar-condicionado sempre estava ligado, o que faz com que não se tenha noção de como esta o tempo lá fora”.

por Gustavo Jreige / 26 Ago

Eu estava atrasado. Havia marcado a entrevista há quase duas semanas, explicando brevemente o assunto da reportagem. Não conversamos durante o período, nem para relembrar que teríamos a entrevista. Chegada a hora, ele estava lá. Eu não. “Essa é a primeira diferença”, disse ele, assim que cheguei.

O italiano Francesco Cardi chegou ao Brasil em 2000. Desde então, entre idas e vindas, ele se mantem por quase nove anos no país. Já trabalhou em várias empresas multinacionais aqui e agora se empenha para ajudar uma terceira a entrar no mercado nacional. Divide seu mês entre São Paulo e Madrid.

Crítico e observador, Francesco tem muito a dizer sobre as culturas com que teve contato – além do Brasil, ele já trabalhou na Espanha, viajou pela Inglaterra e já estudou na Holanda. A primeira impressão que teve no Brasil foi o caos de São Paulo, que lhe marcou. “Muito barulho, muita confusão arquitetônica. Você fica desnorteado – o ruído dos aviões, dos helicópteros, do trânsito. São Paulo não tem um centro, né? É multicêntrica. Então esse foi o primeiro grande impacto que tive ao chegar”, revela.

Por outro lado, a hospitalidade do brasileiro também foi logo experimentada. “Fiquei impressionado com a amabilidade das pessoas. Você vê que elas são muito abertas, muito dispostas a se comunicar, muito curiosas com estrangeiros”, diz o italiano.

Francesco atribui sua facilidade de adaptação à vários aspectos. Primeiro deles diz respeito ao fato do Brasil ser uma cultura latina, assim como a dele. “Não conseguiria me adaptar à cultura inglesa. No ambiente latino consigo me mover mais ou menos bem”, explica.

Ele acredita que a cultura brasileira dá abertura aos estrangeiros justamente pelo fato de ser mais jovem do que culturas de países como a França e a Inglaterra, por exemplo. “A cultura francesa é muito espessa. É uma cultura em que precisa falar muito bem a língua e conhecer a historia para ser bem aceito”, diz.

Há quase 10 anos no Brasil, Francesco mudou bastante. Precisou adaptar alguns costumes para não ter problemas de relacionamento, especialmente suas habilidades políticas no ambiente de trabalho. “A cultura européia em geral é muito direta. Aqui tem que ter mais cuidado, as pessoas acham que é ataque pessoal. Não estão acostumadas a contrastes”, reclama. Ele conta que por diversas vezes, passou por situações no trabalho em que teve que fazer uma crítica e foi orientado a ser menos contundente, menos negativo, mas diz que já se acostumou: “Acho que há de se achar o limite sutil de ser indireto sem ser hipócrita. Eu aceito o fato de ter que haver uma comunicação mais cuidadosa.”

Flexível, Francesco diz ainda que, na Espanha, há de se exercitar justamente o contrário, já que em Madrid a comunicação no ambiente de trabalho seria ainda mais direta do que na Itália, chegando a ser agressiva em certos momentos. Apesar do atraso do repórter, Francesco foi cortez e só se intimidou quando foi questionado sobre sua vida pessoal. “Mas você vai gravar eu falando disso?”, questionou incomodado enquanto apontava para o gravador de voz, ligado desde o começo do nosso papo.

Sua principal reclamação com relação ao povo brasileiro está na nossa falta de politização e de engajamento. Para ele, isso é notório. “O que eu menos gosto é a falta de senso crítico. Em todos esses anos no Brasil, eu nunca presenciei uma discussão séria sobre aborto. Não é um tema importante? Não se conversa sobre política, princípios éticos e morais… mas isso é muito europeu, um americano não sentiria falta de discutir, confrontar idéias. Aqui, quem discute é o cara chato. Nos churrascos, eu sempre era o cara chato.”

por Júlia Aronchi / 25 Ago

Flávia Fernandes, na praia em Sydney, Austrália.

Natural de Londrina, no Paraná, Flávia Mendes Fernandes, 29 anos, morou durante um ano e meio em Dublin, na Irlanda. Ao voltar para o Brasil, em 2005, casou-se com José Mauro Fernandes e mudou-se para a Suzano, cidade do marido que fica a aproximadamente 50 minutos de São Paulo. Depois de dois anos casados decidiram mudar juntos para Sydney, na Austrália. Aqui, Flávia nos conta sobre o que mais lhe chama atenção entre o Brasil e a Austrália:

Trabalho:

“O salário aqui se conta por hora trabalhada e se paga semanalmente. Nada de esperar o mês todo para receber. Algumas empresa pagam de duas em duas semanas. O aluguel também é semanal. Se alguém te pergunta quanto você paga de aluguel, você vai responder o quanto paga por semana. Já a conta de luz é cobrada de três em três meses, o que dá até medo, pois vem aquele número enorme de uma só vez”.

Consumo:

“Quando vou para o Brasil eu reparo como os supermercados são enormes e me dá até desanimo de ir fazer compra. Aqui na Austrália quase todos os bairros tem um ou mais mercados. E não são mercadinhos de vila, são mercados de rede, mas pequenos. Eles preferem espalhar mais unidades pelos bairros do que concentrar tudo em um gigantesco supermercado. No bairro que moro, Dee Why, por exemplo, já tem dois e esta para abrir mais um dentro de um mês. Serão três mercados em seis quarteirões.”

Transporte:

“Pé no chão, literalmente. As pessoas na Austrália gostam muito de andar descalço, tanto os meninos quanto as meninas. Não acho nada de mais, pois também gosto. Afinal de contas, moro a duas quadras do mar e sempre vou a praia descalça. Porém, na Austrália, as pessoas andam descalça em qualquer lugar ou ocasião. Vão ao shopping, ao mercado, comem fora, pegam ônibus, tudo descalço. Um vez estava no ônibus indo do centro da cidade para casa – ou seja, bem longe do mar -, e entrou uma mãe com duas crianças e a família inteira estava de pé no chão e eles não eram mal vestidos, não!”

Diversão:

“Nas praias daqui ninguém usa guarda sol. Quando vejo um perdido na areia sei que deve ser de brasileiro. Às vezes vemos umas barracas do tipo barraca de camping, iglu, mas especial para o uso na areia, mas no geral as pessoas só levam uma toalha debaixo do braço e pronto. Eles usam muito protetor solar, os brasileiros de pele morena tem uma dificuldade para achar protetor 8FPS ou 15FPS, por aqui só se acha de 30FPS para cima.

Uma outra coisa bem interessante é que todas as praias de Sydney tem uma piscina pública em uma das pontas. São piscinas de cimento que ficam quase dentro do mar e cheia da água salgada. Achei isso o máximo quando vi! Quem não quer entrar no mar bravo, usa a piscina”.

Hábitos pessoais e de higiene:

“Aqui na Austrália não é comum se ter empregada pra limpar a casa todo dia. Mesmo quem mora em mansão geralmente contrata faxineira uma vez por semana ou de 15 em 15 dias. Tenho uma amiga que trabalha fazendo limpeza em casa de granfino. Ela tem que ‘se virar nos 30′ pois toda vez que ela chega encontra aquela bagunça acumulada por dias, e ela tem pouco tempo para limpar a casa pois é paga por hora. Por isso a limpeza é feita só por cima. Lavar o banheiro e a cozinha com água, nem pensar! Toda a limpeza é na base do aspirador de pó, dos mops – um tipo de rodo -, e dos sprays desinfetantes”

por Gustavo Jreige / 25 Ago

Guilherme Leite, em Myrtleville, praia próxima a Cork (Irlanda), onde vive

De dono de uma agência de viagens a funcionário da Apple – assim dá para resumir a trajetória de Guilherme Leite, o Gui, de 33 anos, rumo à vida em um outro país. Ele, que tem uma agência no interior de São Paulo, mudou-se para Cork, no sul da Irlanda, para trabalhar no departamento de localização da gigante empresa de tecnologia.

Guilherme conta que se adaptou muito facilmente à Irlanda, devido à cultura tanto do país quanto a sua cultura. “O povo irlandês é extramente simpático, do tipo que puxa conversa na rua. Quando eu era pequeno e meus pais me mandavam para acampamentos de férias eu costumava detestar, queria voltar para casa, mas hoje vejo a importância que essa independência desde moleque teve na minha vida”, explica. O único contato que ele mantém com a cultura brasileira de fato é ocasional e gastronômico: quando vem ao Brasil, leva algumas guloseimas tradicionais de volta para a Irlanda. “A comida irlandesa é bem sem graça”, explica.

Nos últimos anos, esteve no Japão, na China, na África do Sul, em Cuba, no Caribe, nos Estados Unidos e em diversos países da Europa. Apesar de não sentir dificuldade de adaptação, ele volta para o Brasil sempre que pode e não lhe passa pela cabeça mudar definitivamente para fora do país. “Na verdade, a idéia atualmente é morar no Brasil a maior parte do tempo e só vir para a Irlanda para projetos específicos. Gosto muito da Irlanda e do trabalho que desenvolvo na empresa, mas não pensaria em ficar fora do Brasil”.